A indústria era atração.
Crianças, adultos e velhos,
todos em uma única função:
enriquecer o império.
A pirâmide estava escrita,
uma injustiça universal.
Os de baixo eram a maioria
que não tinham vida social.
Folgas não existiam,
nem tinham nenhum direito.
Sem um dedo, não valiam,
eram mercadorias com defeito.
Mal tinham tempo pra comer,
a solução era martelar.
Trabalhavam para viver
e viviam para trabalhar.
Ao redor do buraco tudo é beira
Arremesso livros. Culpo páginas. Estouro canetas. Bloqueio visões. Arrebento espaços. A madrugada é descomunal e o caos instaurado. Questiono-me como alguém dorme. Lá fora. Como alguém sonha. Do outro lado. Como o pulso pulsa quando o impulso só parte, certeiro, do fim do poço. Aqui. A gente precisa da miséria para ser algo maior; verdade mesmo é que só no desespero se descobre o que se é. O descabimento das palavras, como alocações enfáticas mal executadas entre suspiros e berros; o descabimento das palavras, as conjunções mal utilizadas e a infinita sequência de vírgulas, de certo tem-se medo de encontrar o final; o descabimento das palavras, essencialmente sintomático. Ninguém necessita do conexo quando língua e arte conjuntamente trabalham. Surreais. Há psicodelia nas paredes pálidas do quarto doentio, na camisa de força alva, na bala certeira ao alvo: basta ousar dar um soco no próprio olho e, na dor, ver o pipocar das cores e o desencadear do grito, provavelmente preso e, quando não, melhor assim. As ilusões encontram-se nos últimos milímetros do precipício e este é o habitat exato dos nossos pés. Nossa zona de conforto é menos dócil do que se diz. O olho do furacão é o camarote da tempestade e, você sabe, não há nada mais viciante e belo do que um estrago. A queda no abismo é uma libertação lunática, tanto quanto saber-se origem de redemoinhos apenas pelo desencadear de insanidades e ideologias é prazer e metamorfose. Existe uma voz dentro da minha voz que sustenta a teoria de que homens necessitam do frenesi para não sentirem-se tão mortos. Suassuna foi cômico, trágico comigo. Eu, que caço depressão e melancolia, eu, que me detesto pelo hábito, eu, que rasgo as roupas e exponho: não há nada mais poético que corpos nus; eu, que, acabada, ainda encontro ar e gargalho. É assim, aquela história de fim dos tempos, digo. Vem-me, às três da madrugada, a inexatidão do escasso: bons são textos que, uma vez lidos, desajustam, cujos leitores, uma vez desajustados, jamais os esquecem, e cujas linhas jamais tornam a serem vistas. Ninguém precisa ler para a poesia ser poesia. Ninguém a precisa escrever, também. A troca primordial é destas: invisíveis, passageiras, corridas e mortas como são todas as horas batidas pelos ponteiros. Eu viro pro guri e digo, “anota isso não, minha beleza só trabalha de verdade, explosiva, contagiante, inexplicável, quando o contexto importa mais do que a gramática”. Detesto o uso da razão até mesmo para questões literárias. E há um mal, uma doença nomeada “Achar-se Metáfora”, que reside em certas cabeças. Eu diria artísticas, mas possivelmente o ego de alguns não compreenderia o dito do meu eu (e a diferença absurda entre eu e ego inicia guerras, suponho). Evito uma sinceridade que, a outros, pareceria elitismo. De todo modo, há o Achar-se Metáfora, há a prática subconsciente de quem mantém a mão dentro da panela com água no fogão só para ver até onde se suporta a temperatura, há o pé torcido que avança passo após passo sem apoiar-se em parede alguma, há uma coluna inclinada, peito comprimido contra joelhos, e um choro que invade a madrugada. Ouço a agonia de outro insone, de outro escritor falido, de uma velha desalmada que já virou na goela uma cartela de comprimidos e ainda não morreu de overdose. A gente se reconhece. Os artistas. (Os partidos à parte). Baby, isso tudo é tão estupidamente decadente que chega a ser o auge da minha existência e humor. Rio do meu soco, rio do alucinógeno, rio do que surge: Um cavalo morto é um animal sem vida.
Ariano é distração de depressivos. E você pode deixar que te falte o ar após uma dessas gargalhadas crônicas misturadas à melancolia, também.
- Claudia CaladoNico,
a fumaça do teu cigarro poderá se materializar em mim quando a neblina cinza do preto cobrir o todo, depois de o sol ter rodado o dia e ter trocado de plantão com a Lua.
Eu sei que as curvas do meu corpo se moldadas sob seus olhos o dopariam tanto quanto o barulho das rodinhas velhas e desgastadas do skate me dopariam.
É engraçado olhar pro chão e não acreditar mais em sua firmeza.
Percebi que a síntese de algo é a resposta mais desesperada quando se esta sem fôlego.
Entregaram a nossa síntese antes da tese e antítese, amor.
Esqueceram do padrão, agora apaga a luz.
O quarto é bagunçado e sem espaço, mas não repara não. Fora preenchido por verdades ocas e cheiro de nicotina, talvez até por um sociopatismo fajuto.
O sêmen sepultado na parede é obra de arte, mas não vale tanto.
E não pensa no autor.
Disseram que o catarro de tinta do burguês europeu vale alguns milhões a mais, todavia, eu guardo para mim que Mozart a homenagearia com a mais fina onda sonora. As meias sujas do chão são duma irmã que não existe, e as calcinhas jogadas no canto cheiram a sabonete.
Aquela banda tocou lá no meu armário ontem, baixo, baixo, quando eu me escondi lá do grito da chuva. Sei que nossas camas estão longe uma da outra, mas divide seu cobertor, deixe-me esquentar meus dedos descorados na sua canela.
Ontem choveu, hoje talvez.
Dorme comigo?
Apaga a luz.
Desculpa não ser direta em três linhas, costumo travar em sílabas e falar rápido demais.
Problema de dicção, acho que eu também terei de vista.
Ninguém sabe mais eu gosto de alisar meus pés com eles próprios quando escrevo. De sentir o osso resmungar quando giro o punho. Do barulho da pélvis contra a virilha. Do gosto da saliva.
Apagou a luz?
Gosto de dormir cedo vez ou outra.
E também de rabiscar qualquer frase em qualquer momento em qualquer lugar.
Esses dias eu senti sua falta, e no dia anterior deste e no antecessor do anterior e no sucessor do ontem.
Vago entre espaços sem falar com zé e ninguém coisas como: Ontem eu visitei Plutão, mas o mudaram de lugar. Quando não te enxergam lambendo seus caminhos arrumam tal jeito de justificar sua sutil demissão. Plutão vivia quieto, mas amava os planetas.
Ninguém via.
O chão está tremendo a chuva e eu não quero dormir com medo de terremoto.
Toquei a campainha, mas foi minha alma que lhe foi fazer visita.
Guarde-a bem.
A visita morrerá junto de ti.
Cansada e amarelada.
A chuva resmunga e o chão a treme.
E se eu for Plutão?
Chega de falar de amor
Todos nos joguemos no abismo dos loucos desvairados e sedentos por revolução cotidiana.
Todos nos sirvamos do bocado da colher onde come o maluco que sonha com o dia que domine o mundo.
Todos nos escondemos na nossa própria derrota.
Todos levantemos a bandeira do SOU ALIENADO.
Vai que assim sejamos aceitos nessa sociedade de bossais capitalistas insatisfeitos com o suor dos covardes e temidos pelo grito louco desvairado do sedento por revoluções cotidianas.
Todos sejamos loucos e
sedentos
por revoluções
cotidianas.