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A indústria era atração.
Crianças, adultos e velhos,
todos em uma única função:
enriquecer o império.


A pirâmide estava escrita,
uma injustiça universal.
Os de baixo eram a maioria
que não tinham vida social.


Folgas não existiam,
nem tinham nenhum direito.
Sem um dedo, não valiam,
eram mercadorias com defeito.


Mal tinham tempo pra comer,
a solução era martelar.
Trabalhavam para viver
e viviam para trabalhar.

- Morgana Rocha
E ela não falou essa noite. Só essa noite. E ela não chorou. E ela lembrou-se do garoto que lhe disse ter um riso bonito. E ela se lembrou da noite em que sentiu a liberdade soprar em sua cara. E só sentiu sua brisa. Só por uma noite. E ela dançava, e sorria, e olhava pros lados e todos eram seus, tudo era seu, o mundo todo. Ela pertencia ao mundo. E havia sóis, vários sóis, e todos sorriam a ela. E ela não sentiu mais medo, pois o mundo era seu. E havia vários mundos que ela foi descobrindo, um mais lindo que o outro, um mais fundo que o outro, cada um mais difícil de sair-se do que o outro. E havia vários outros. E havia vários mundos, mas ela não pertencia mais a nenhum. E nada mais era seu. O mundo que ela perdeu, a brisa livre passou, e tudo começou a ficar parado, tachado, automatizado. E ela não se sentia mais livre, mas prisioneira de seus próprios pensamentos, de seus próprios mundos que ela mesma criou em sua mente. E havia várias mentes. E havia várias gentes. E havia tudo o que não era dela. Tudo que não lhe pertencia. Tudo que já lhe foi um dia, algo de que se esperar. E ela gritava pro nada, um estrondo sem som, um grito abafado por uma mão invisível que cobria seu rosto. E várias mãos que cobriam seu corpo. E o desejo de voar, de viver, de ser quem ela poderia ser se não fosse o medo de tentar. Se não fossem as pessoas esquisitas, e todos os textos que escrevia, e as risadas estridentes de pessoas disfarçadas de delinquentes, de seres humanos disfarçados de pequenos monstros, de grandes monstros, de todos os monstros. De mãos geladas. E todas as mãos geladas que tocavam seu corpo, e que ficavam quentes. E todos que rejeitaram seu corpo, como se fosse doente. E todos os olhos virados pro seu rosto. E seu único olho, afogado por um fosso. -  E ela só queria ver as estrelas - Cartas Publicadas

Ao redor do buraco tudo é beira


Arremesso livros. Culpo páginas. Estouro canetas. Bloqueio visões. Arrebento espaços. A madrugada é descomunal e o caos instaurado. Questiono-me como alguém dorme. Lá fora. Como alguém sonha. Do outro lado. Como o pulso pulsa quando o impulso só parte, certeiro, do fim do poço. Aqui. A gente precisa da miséria para ser algo maior; verdade mesmo é que só no desespero se descobre o que se é. O descabimento das palavras, como alocações enfáticas mal executadas entre suspiros e berros; o descabimento das palavras, as conjunções mal utilizadas e a infinita sequência de vírgulas, de certo tem-se medo de encontrar o final; o descabimento das palavras, essencialmente sintomático. Ninguém necessita do conexo quando língua e arte conjuntamente trabalham. Surreais. Há psicodelia nas paredes pálidas do quarto doentio, na camisa de força alva, na bala certeira ao alvo: basta ousar dar um soco no próprio olho e, na dor, ver o pipocar das cores e o desencadear do grito, provavelmente preso e, quando não, melhor assim. As ilusões encontram-se nos últimos milímetros do precipício e este é o habitat exato dos nossos pés. Nossa zona de conforto é menos dócil do que se diz. O olho do furacão é o camarote da tempestade e, você sabe, não há nada mais viciante e belo do que um estrago. A queda no abismo é uma libertação lunática, tanto quanto saber-se origem de redemoinhos apenas pelo desencadear de insanidades e ideologias é prazer e metamorfose. Existe uma voz dentro da minha voz que sustenta a teoria de que homens necessitam do frenesi para não sentirem-se tão mortos. Suassuna foi cômico, trágico comigo. Eu, que caço depressão e melancolia, eu, que me detesto pelo hábito, eu, que rasgo as roupas e exponho: não há nada mais poético que corpos nus; eu, que, acabada, ainda encontro ar e gargalho. É assim, aquela história de fim dos tempos, digo. Vem-me, às três da madrugada, a inexatidão do escasso: bons são textos que, uma vez lidos, desajustam, cujos leitores, uma vez desajustados, jamais os esquecem, e cujas linhas jamais tornam a serem vistas. Ninguém precisa ler para a poesia ser poesia. Ninguém a precisa escrever, também. A troca primordial é destas: invisíveis, passageiras, corridas e mortas como são todas as horas batidas pelos ponteiros. Eu viro pro guri e digo, “anota isso não, minha beleza só trabalha de verdade, explosiva, contagiante, inexplicável, quando o contexto importa mais do que a gramática”. Detesto o uso da razão até mesmo para questões literárias. E há um mal, uma doença nomeada “Achar-se Metáfora”, que reside em certas cabeças. Eu diria artísticas, mas possivelmente o ego de alguns não compreenderia o dito do meu eu (e a diferença absurda entre eu e ego inicia guerras, suponho). Evito uma sinceridade que, a outros, pareceria elitismo. De todo modo, há o Achar-se Metáfora, há a prática subconsciente de quem mantém a mão dentro da panela com água no fogão só para ver até onde se suporta a temperatura, há o pé torcido que avança passo após passo sem apoiar-se em parede alguma, há uma coluna inclinada, peito comprimido contra joelhos, e um choro que invade a madrugada. Ouço a agonia de outro insone, de outro escritor falido, de uma velha desalmada que já virou na goela uma cartela de comprimidos e ainda não morreu de overdose. A gente se reconhece. Os artistas. (Os partidos à parte). Baby, isso tudo é tão estupidamente decadente que chega a ser o auge da minha existência e humor. Rio do meu soco, rio do alucinógeno, rio do que surge: Um cavalo morto é um animal sem vida.

Ariano é distração de depressivos. E você pode deixar que te falte o ar após uma dessas gargalhadas crônicas misturadas à melancolia, também.

- Claudia Calado
Uma menina me ensinou, quase tudo que eu sei. Era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei. Ela fazia muitos planos, eu só queria estar ali sempre ao lado dela… Eu não tinha aonde ir. Mas egoísta que eu sou, me esqueci de ajudar a ela como ela me ajudou, e não quis me separar. Ela também estava perdida, e por isso se agarrava a mim também. E eu me agarrava a ela porque eu não tinha mais ninguém. E eu dizia: “Ainda é cedo.” Sei que ela terminou o que eu não comecei. E o que ela descobriu, eu aprendi também, eu sei. Ela falou: “Você tem medo.” Aí eu disse: “Quem tem medo é você.” Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém. Ela me disse: “Eu não sei mais o que eu sinto por você. Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.” E eu dizia: “Ainda é cedo. - Legião Urbana

Nico,


a fumaça do teu cigarro poderá se materializar em mim quando a neblina cinza do preto cobrir o todo, depois de o sol ter rodado o dia e ter trocado de plantão com a Lua.
Eu sei que as curvas do meu corpo se moldadas sob seus olhos o dopariam tanto quanto o barulho das rodinhas velhas e desgastadas do skate me dopariam.
É engraçado olhar pro chão e não acreditar mais em sua firmeza.
Percebi que a síntese de algo é a resposta mais desesperada quando se esta sem fôlego.
Entregaram a nossa síntese antes da tese e antítese, amor.
Esqueceram do padrão, agora apaga a luz.
O quarto é bagunçado e sem espaço, mas não repara não. Fora preenchido por verdades ocas e cheiro de nicotina, talvez até por um sociopatismo fajuto.
O sêmen sepultado na parede é obra de arte, mas não vale tanto.
E não pensa no autor.


Disseram que o catarro de tinta do burguês europeu vale alguns milhões a mais, todavia, eu guardo para mim que Mozart a homenagearia com a mais fina onda sonora. As meias sujas do chão são duma irmã que não existe, e as calcinhas jogadas no canto cheiram a sabonete.
Aquela banda tocou lá no meu armário ontem, baixo, baixo, quando eu me escondi lá do grito da chuva. Sei que nossas camas estão longe uma da outra, mas divide seu cobertor, deixe-me esquentar meus dedos descorados na sua canela.


Ontem choveu, hoje talvez.
Dorme comigo?
Apaga a luz.
Desculpa não ser direta em três linhas, costumo travar em sílabas e falar rápido demais.
Problema de dicção, acho que eu também terei de vista.
Ninguém sabe mais eu gosto de alisar meus pés com eles próprios quando escrevo. De sentir o osso resmungar quando giro o punho. Do barulho da pélvis contra a virilha. Do gosto da saliva.


Apagou a luz?
Gosto de dormir cedo vez ou outra.
E também de rabiscar qualquer frase em qualquer momento em qualquer lugar.


Esses dias eu senti sua falta, e no dia anterior deste e no antecessor do anterior e no sucessor do ontem.


Vago entre espaços sem falar com zé e ninguém coisas como: Ontem eu visitei Plutão, mas o mudaram de lugar. Quando não te enxergam lambendo seus caminhos arrumam tal jeito de justificar sua sutil demissão. Plutão vivia quieto, mas amava os planetas.


Ninguém via.


O chão está tremendo a chuva e eu não quero dormir com medo de terremoto.


Toquei a campainha, mas foi minha alma que lhe foi fazer visita.
Guarde-a bem.
A visita morrerá junto de ti.
Cansada e amarelada.
A chuva resmunga e o chão a treme.


E se eu for Plutão?

- oceanim

Chega de falar de amor


Todos nos joguemos no abismo dos loucos desvairados e sedentos por revolução cotidiana.


Todos nos sirvamos do bocado da colher onde come o maluco que sonha com o dia que domine o mundo.
Todos nos escondemos na nossa própria derrota.
Todos levantemos a bandeira do SOU ALIENADO.


Vai que assim sejamos aceitos nessa sociedade de bossais capitalistas insatisfeitos com o suor dos covardes e temidos pelo grito louco desvairado do sedento por revoluções cotidianas.


Todos sejamos loucos e
sedentos
por revoluções
cotidianas.

- oceanim
Antes de existir computador, existia tevê.
Antes de existir tevê, existia luz elétrica.
Antes de existir luz elétrica, existia bicicleta.
Antes de existir bicicleta, existia enciclopédia.
Antes de existir enciclopédia, existia alfabeto.
Antes de existir alfabeto, existia a voz.
Antes de existir a voz, existia o silêncio.
O silêncio.
Foi a primeira coisa que existiu.
Um silêncio que ninguém ouviu.
Astro pelo céu em movimento
E o som do gelo derretendo.
O barulho do cabelo em crescimento
E a música do vento.
E a matéria em decomposição.
E a barriga digerindo o pão.
Explosão de semente sob o chão.
Diamante nascendo do carvão.
Homem, pedra, planta, bicho, flor.
Luz elétrica, tevê, computador.
Batedeira, liquidificador.
Vamos ouvir esse silêncio, meu amor.
Amplificando no amplificador
Do estetoscópio do doutor
No lado esquerdo do peito, esse tambor. - Arnaldo Antunes
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância. Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças d’água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo. Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo - Vinícius de Moraes